sábado, 28 de abril de 2018

Depoimento: John Luccock e os subúrbios


John Luccock, comerciante inglês que esteve no Rio em 1808, 1813 e 1818, deixa relatos interessantíssimos sobre os subúrbios do Rio de Janeiro, naqueles tempos chamados de "arrabaldes", de locais que hoje são bairros como a Penha, Irajá e Pavuna. Os subúrbios eram locais de passeios ao ar livre e um convite aos naturalistas e botânicos fazerem suas pesquisas. A natureza da região era belíssima. Rios limpos, árvores e frutos de todos os tipos e muitos animais da floresta ainda preservada. 

Da Pavuna e arredores, o viajante do século XIX fala de montanhas cobertas de arvoredos, lugares com muita caça, numerosas lagoas com muitas aves. Luccock relata que em pontos, às margens do rio Meriti, o solo “era extraordinariamente rico e, nos trechos suficientemente secos, produzia safras volumosas de açúcar, milho e mandioca” 
Gravura de Rugendas que nos dá uma ideia de como era a natureza dos arredores do Rio
Foto: Wikimedia Commons
Sobre a Penha e Irajá: 

“A pequena aldeia de Mariangú fica num local baixo e arenoso, semeado de charcos e, na aparência, insalubre. Cerca de duas milhas distante por detrás dela, acha-se um rochedo perpendicular de granito com mais de três mil pés de alto e em cujo cume se encontra a igreja de Nossa Senhora da Penha, constituindo linda perspectiva de vários pontos da baía e que antigamente era o cenário anual de grandes festividades. Quatro milhas mais além e pela mesma praia chata, na foz de um riacho raso mas amplo de mesmo nome, fica a aldeia do Irasá (sic). As poucas míseras cabanas que a compõem pertencem, creio eu, ao vilarejo de Irajá e se dispõem sobre um outeiro rochoso, gozando de bela vista dos estreitos e da baía. A costa pedregosa e as águas rasas devem alí criar grandes dificuldades até mesmo para canoas; daí, provavelmente, seu nome, que mais ou menos corresponde a uma exclamação de tédio.  Bem ao largo desse ponto fica a ilhota de Saqueté, que forma um belo objeto da paisagem munida, como muitas das outras ilhas, de um cais e de uma “vivenda”, em que param os catraieiros em suas viagens diárias dalí para o mercado e no regresso. A pouca distância fica o largo estuário do Merití, donde a praia vai-se elevando até o lindo rio Serapuí,, cujas margens são bem cultivadas”.

Observação: Praia de Mariangu (atual rua Pirangi, em Olaria), nome indígena de uma ave que habitava todo o chamado recôncavo da Baia de Guanabara, ficava onde se localiza a avenida Lobo Júnior, Penha Circular, até Ramos. A faixa de areia foi tomada pela Avenida Brasil. No atual piscinão de Ramos ficava Apicú. 




Fontes:

LUCCOCK, John. "Notas Sobre o Rio de Janeiro e Partes Meridionais do Brasil", Belo Horizonte: Editora Itatiaia  São Paulo: Editora da USP, 1975

BLOG "Subúrbios do Rio" in: http://suburbiosdorio.blogspot.com.br/2012/03/praia-de-maria-angu.html (acesso em 01/02/2018)



Os engenhos de cana de açúcar na região de Irajá


A cana de açúcar veio da Ásia e foi trazida pelos portugueses ao Brasil no século XVI. A partir da década de 1530, a cana passa a ser cultivada de maneira intensa no Nordeste da colônia portuguesa. Desta planta vinha um produto muito lucrativo: o açúcar. Em diversas partes da América Portuguesa, como o Brasil era conhecido, foram erguidos engenhos para a produção do “ouro branco”. 
Aspecto de um engenho antigo
Foto: Wikimedia Commons
Segundo o geógrafo Maurício de Abreu, pesquisador da evolução urbana da cidade do Rio de Janeiro, 219 engenhos produtores de cana-de-açúcar na região de Irajá/Meriti, região banhada pelos rios Pavuna, Meriti e Sarapuí, que hoje são bairros da cidade do Rio de Janeiro, como Irajá, por exemplo, e outros municípios como São João de Meriti e Caxias, na Baixada Fluminense. Esta contagem é feita entre os anos de 1601 e 1700, ou seja, no século XVII.
Pesquisadores da história do bairro de Irajá acreditam, baseados em documentos e nas experiências de plantio de cana em outras regiões do país na época, que Irajá era uma espécie de “celeiro” do Rio. Essa enorme região produzia não só uma grande quantidade de açúcar, mas desenvolvia outras atividades importantes para dar apoio à produção, tais como olarias, para a fabricação de tijolos e telhas. Havia também a produção de hortifrutigranjeiros, plantações de verduras, frutas e criação de aves, para alimentação. Por fim, havia também a criação de bois e vacas que serviam tanto para produção de leite, abate e força motriz para os engenhos.



Texto: Prof. Fábio de J. de Carvalho – docente de história da unidade escolar e coordenador do projeto Clube de História


Fontes:

ABREU, Mauríco de Almeida. “Um quebra-cabeça ( quase ) resolvido: os engenhos da capitania do Rio de Janeiro – séculos XVI e XVII”  Scripta NOVA REVISTA ELECTRÓNICA DE GEOGRAFÍA Y CIENCIAS SOCIALES , Universidad de Barcelona.  Vol. X, núm. 218 (32), 1 de agosto de 2006 In: http://www.ub.edu/geocrit/sn/sn-218-32.htm (acesso em 28/03/2017)

RODRIGUES, Agostinho. “Meu Irajá”. Rio de Janeiro: Coletivo Instituto Histórico e Geográfico da Baixada de Irajá, 1999, edição digital. In: http://www.falazonanorte.com.br/downloads/meuiraja.pdf


sexta-feira, 27 de abril de 2018

Depoimento: d. Zezé e a fábrica de tijolos da comunidade de Para Pedro


Forno antigo de olaria na França
Foto:Wikimedia Commons
A aluna Vitória Moraes, que participou do Clube de História em 2016, nos enviou um depoimento de sua avó sobre uma olaria, ou seja, uma fábrica de tijolos que existiu na comunidade do Para Pedro. A fábrica se localizava na região das Torres, próxima ao CEASA.
D. Maria José Barreto de Moraes, a d. Zezé, tem 87 anos e chegou na comunidade nos anos de 1950. Ela fez o seguinte relato à neta: 


Era uma grande casa que já foi uma olaria A torre já existia nessa época. Ttinha alguns barraquinhos, pouquíssimos. O Ceasa era uma plantação de vagem e agrião. Pessoas plantavam lá. Depois criaram o Ceasa. Tinha um lago bem grande em uma das ruas principais da comunidade. Com isso a primeira moradora veio morar aqui. Meu marido era um trabalhador e morador da olaria. Havia uma estação de trem que vinha pelos bairros da zona norte que passava em Coelho Neto para Colégio... Aonde se localiza o metrô hoje era uma estação de trem [E F Rio D`Ouro]. A Vulcan já estava lá e o bairro já se chamava Colégio

Local onde provavelmente se localizava a antiga olaria
foto: Vitória Moraes

Série "Conheça Irajá" - CEASA

No dia 28 de agosto de 2014, o CEASA fez 40 anos e através desse texto vamos mostrar um pouco de sua história...
No início da década de 1970, o governo federal criou o programa estratégico de desenvolvimento. Uma das prioridades dele era a criação de centrais de abastecimento do país. No Rio de Janeiro, no bairro do Irajá, foi construída a CEASA. Ela passou a funcionar em 28 de agosto de 1974. Ela abastece não só a capital do estado como Meriti, Nova Iguaçu etc.
CEASA, visto da av, Brasil
Foto:Wikimedia Commons
É a segunda maior central de abastecimento da América Latina. Funciona como uma cidade que trabalha dia e noite. Ela comercializa anualmente quase 2 milhões de alimentos. E o CEASA mantém um banco de alimento que relaciona e embala as mercadorias descartadas, que iriam para o lixo, para  instituições.

CONHEÇA!

Av. Brasil, 19001 - Irajá, Rio de Janeiro

Funcionamento: Seg à Sáb  de 7 às 17 h


Texto e pesquisa: Thamyres de Araújo; Maria Eduarda Alves; Sara dos Reis e Caio Bezerra - alunos da turma 1802 (8º ano) e colaboradores do Clube de História em 2018. 

Fonte: Portal do CEASA http://www.ceasa.rj.gov.br/ceasa_portal/view/Ceasa40anosComp.asp?idCeasa40anos=1 (acesso em 13/04/2017)

Série "Conheça Irajá" - Biblioteca Popular de Irajá João do Rio


Foto: fanpage da BP de Irajá
A biblioteca foi fundada em 16 de julho de 1959, com um acervo inicial de 1446 livros, tendo à frente a bibliotecária Aracy Alves Fernandes Guimarães. Começou funcionando em uma loja na avenida Monsenhor Félix, 420. 
Com decreto 10205 de 1991, passou a ser chamada "Biblioteca Popular de Irajá João do Rio".
Em dezembro de 1992, o prefeito Marcello Alencar inaugurou a nova sede na avenida Monsenhor Féliz 512, tendo como patrono um homem que foi jornalista, cronista, tradutor, teatrólogo e membro da Academia Brasileira de Letras. 
Durante o novo período a Biblioteca Regional de Irajá conseguiu ampliar seu âmbito de ação, chegando a ultrapassar sua área de atendimento, aumentando e atualizando seu acervo.

Conheça!

Av. Monsenhor Félix, 512 - Irajá, Rio de Janeiro - RJ, 21361-132 


Horário de funcionamento: Seg à Sex - 9h às 17h


Texto e pesquisa: Alan Dantas; Amanda Lopes; Anny Souza; Arthur Menezes; João Pablo Alves e Thiago Novaes - alunos da turma 1802 (8º ano) e colaboradores do Clube de História em 2018. 

Fonte: Arquivo da Biblioteca Popular de Irajá

OBS: A EM Mendes Viana agradece à Biblioteca Popular de Irajá pela receptividade para com nossos alunos e com o nosso professor de Sala de Leitura, prof. Vinck Vitório, para a realização dessa pesquisa.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Depoimento: d. Gilcinéa e os primeiros anos morando na Para Pedro

Algumas pessoas estão sendo convidadas a compartilharem com a gente suas memórias. Muitas vezes isso se dá em entrevistas ou pequenos depoimentos. O depoimento de hoje é de d. Gilcinéa Ferreira, antiga moradora da Para Pedro e aluna da Mendes Viana  nos anos de 1960. Nos enviou suas memórias pelo Facebook. Ela se tornou  professora, mas não exerce mais a profissão,e diz ser muito grata, assim como seus irmãos, por tudo que aprendeu na Mendes 

Meus pais vieram de Guapimirim em 1957, recém casados, morar perto dos irmãos mais velhos, pois tenho, ainda hoje, parentes que moram no bairro [Irajá]. Meus pais casados, sem estudos e qualificação profissional, foram morar nas ruas do bairro de Colégio, Jurucê e Jabotiana. Logo meu pai com três filhos ficou desempregado. Eu tinha 5 anos e fui morar no Para Pedro, a nossa alimentação muitas vezes eram os peixes da lagoa,. A comunidade tinha muita gente vinda de Guapimirim provavelmente os primeiros moradores, pessoas do Norte , Minas Gerais, etc...

D. Gilcinéa nos conta a curiosa história da lagoa que existia na comunidade de Para Pedro e sobre os primeiros anos da comunidade:  
Vista parcial da comunidade do Para Pedro, em frente à Mendes
Foto: prof. Fábio Carvalho

Sim, eu e meus irmãos pescamos muitas vezes lá, Tinha peixes como: Acará, Piabas e um peixe estranho tipo uma cobra que chamavam de mussum, usávamos escorredor de macarrão para pescar e tinha muito peixe.

Era mais para dentro do Para Pedro,pois em frente à escola [a Mendes Viana] era uma horta onde todos compravam verduras e legumes. A lagoa ficava perto da bica onde todos pegavam água, pois não tinha água nas residências.
Para Pedro foi o nome dado à comunidade (favela, como se dizia), pois seu Moisés na sua barraca saudava os moradores com "bom dia" do alto falante e falava o nome de cada morador. Ele morava lá no campo em frente da Vulcan e colocava a música "Para, Pedro! Pedro, para!" , ficando assim a música com título da comunidade.
Os primeiros moradores foram: dona Rodinéa, tio Arnaldo, dona Eloá, tio Jair, "seu" Moisés e em seguida nossa família. Não era uma favela, tornou-se com a chegada de pessoas de outros lugares, tanto que  em 1971 o  governo tentou acabar com a comunidade dando apartamentos da COABH [companhia de habitação que construía casas populares] , para os moradores. Saiu muita gente. Quase acabou. Mas com o tempo ela voltou a crescer. Em 1972 eu me mudei,mas não tenho nenhum tipo de trauma de falar de onde vim,que morei sem água e luz em casa. Porém meu pai teve a oportunidade de estudar fazendo desde o antigo MOBRAL [Movimento Brasileiro de Alfabetização, programa que visava alfabetizar jovens e adultos entre os anos 1960 e 1980] até a Faculdade de Enfermagem "Luiza de Marilac" e se tornou um dos melhores instrumentadores cirúgicos que já conheci, instrumentando no Hospital Clementino Fraga ( Fundão) e no hospital Geral de Bonsucesso. Então, nossa vida mudou. Meu avô materno deixou uma herança e assim começamos uma nova vida. E com Jesus o Cristo ao meu lado sou feliz. Bom dia!

No princípio era Eiraîá


Tupinambás
Foto: gravura de Theodor de Bry - Wikimedia Commons
Antes da chegada dos colonizadores portugueses à região era uma aldeia indígena. Essa aldeia de índios tupinambás tinha o nome de Eiraîá e se estendia ao longo do atual rio Irajá. Documentos franceses datados do século XVI, mais precisamente por volta dos anos 1550, citam esta aldeia. Era, com certeza, bastante considerável o número de indígenas deste agrupamento.
A fauna e a flora ao longo do rio Irajá eram exuberantes. Muitas árvores, plantas, flores, frutos e diversos animais silvestres. Terra de beleza, mas também de caça, pesca e coleta abundantes. Isso pode explicar porque este grupo indígena se fixou na região.
Provavelmente isso é um aportuguesamento da palavra tupi eiraîá. O significado pode ser “repleto de mel”, “como as abelhas” ou se refira a um mamífero chamado irara, da família do furão, que habitava a região. O nome desse mamífero podia ser o nome do morubixaba, chefe da aldeia.
Irara ou Papa - Mel
Foto: Wikimedia Commons
Há uma lenda que é muito repetida, inclusive,  na qual os indígenas teriam confundido o melaço, o líquido da cana moída, com o mel. Por isso, alguns acreditam que o significado seja “o mel brota”. Pesquisas recentes não acreditam nessa hipótese. Certo é que esta região do Rio de Janeiro foi a que manteve quase sem mudança o seu original nome indígena.


Texto: Prof. Fábio de J. de Carvalho – docente de história da unidade escolar e coordenador do projeto Clube de História


Fontes:


MULTIRIO - Web Rádio, programa "Caminhos Cariocas - Irajá" in: http://www.multirio.rj.gov.br/index.php/ouca/webradio/2297-iraja (acesso em 01/04/2018)

SILVA, Rafael Freitas da. "O Rio antes do Rio",  Rio de Janeiro: Ed. Babilônia, 3ª ed., 2017